A força da nação

Emiliana Carvalho

Uma nação. Assim o povo da comunidade remanescente quilombola de Tijuaçu identifica, hoje, a terra onde vive. Nascidos não propriamente dali, daquele chão cravado em meio ao semiárido baiano, no interior brasileiro, mas dos ventres de três escravas que fugiram dos martírios de uma senzala soteropolitana e que buscaram liberdade em terras ainda mais distantes que a sua África, os homens e mulheres de Tijuaçu construíram “uma pátria”.

Esta pátria, de raízes antigas, guarda em sua história dores, privações e preconceitos, mas guarda também exemplos de luta. Os membros da nação Tijuaçu trabalharam, dançaram e cantaram para sobreviver, fazendo disto um ato de liberdade e resistência, fazendo nascer uma das manifestações culturais mais significativas da Bahia: o Samba de Lata.

Mulheres e homens dançavam e cantavam o que os seus espíritos pediam. Criavam versos simples que falavam com sentimento de sua terra e de tudo que ela abarcava. Enfrentando a dificuldade da falta d´água e a ganância dos homens de terra, eles buscaram água onde podiam e, na lata, ainda vazia, batiam o ritmo que as almas pediam. Os pés arrastavam a poeira do chão e, assim, o samba se fazia, ano após ano, geração a geração.

Hoje, são as mulheres que mais representam o Samba de Lata. Criam com ânimo e vontade as canções que carregam pelos recantos do Brasil, onde o samba é convidado. Os vestidos rodados, as contas no pescoço e as pulseiras contrastam em sua singeleza com a firmeza dos pés descalços que também são instrumentos rítmicos junto com a lata.

Essas mulheres alimentam-se do Samba de Lata para fazerem viver toda uma história que sustenta uma comunidade inteira, dando-lhe a identidade necessária. Crianças, homens e idosos assistem o labor diário dessas mulheres que mantêm coerente a força de vontade daquelas três mulheres que lutaram pela própria liberdade e que foram os alicerces de Tijuaçu.

As mulheres do Samba de Lata fazem crescer e viver a força de sua “nação”.

Emiliana Carvalho: é jornalista e escritora. Tenta investigar o mundo com sua sensibilidade e lucidez. Intimista na forma de encarar tudo: inclusive o “coletivo”. Olha e tenta ver-se no que vê e, talvez por isso, enxerga o que quase ninguém vê. 

 

Uma lata feita de samba

Pedro Sá

Há uma dança sobre o chão dos dias de Tijuaçu. Essa dança é feita de terra, feita do embalo da lata e da verdade dos passos daqueles que dançam. Basta que se faça uma roda nas ruas, e que haja uma voz no ritmo das mãos, para que então comece: o samba de lata.

Há em Tijuaçu a recordação de um povo que foi ferido pela escravidão, pela tristeza de tantos dias de dor... Mas é esse o mesmo povo que cresce para a alegria... O samba de lata são esses homens, mulheres e crianças que, cantando e dançando, conseguem cumprir a difícil tarefa que a história lhes deu: esquecer as angústias desse passado sem, com isso, esquecer-se de si.

Pedro Sá: é poeta e psicanalista. Ensina o que tenta, dia após dia, aprender e tenta revelar a razão através dos vestígios de realidade contida nos sonhos e da sua rica imaginação poética.



Tijuaçu: O Samba de Lata e a mágica recriação do mundo

Paulo Machado

Em seu trabalho “Cultura, Civilização e Ideologia”, publicado em 1992, Guy Rocher, com apoio na boa definição de Tylor, conceitua Cultura como “um conjunto interligado de formas de pensar, sentir e agir, mais ou menos formalizadas, que sendo aprendidas e partilhadas por uma pluralidade de pessoas, servem de uma maneira ao mesmo tempo objetiva e simbólica, para transformar essas pessoas em uma coletividade particular e distinta”.

Esta definição, bastante rica, pode ser aplicada à comunidade negra de Tijuaçu, em todas as suas tintas e cores, o que permite que se retome, a cada vez que se contemplem e se retomem os seus fatos culturais de destaque, as características da própria cultura e da história local. É por isto que nem a comunidade de Tijuaçu dá por exaurida a sua experiência de dançar e cantar em roda, ao atabaque da lata, nem nós, que a este espetáculo assistimos, nos damos por satisfeitos a cada apresentação que nos enche os olhos e a alma.

O Samba de Lata, e com ele a cultura tijuaçuense é, sem dúvida, em sua densidade, uma forma especial de “pensar, sentir e agir”, o que se vai desvelando a cada fala, a cada canto, a cada volteio: conhecimentos, ideias, pensamentos são externados, exprimindo-se modelos, valores, história, leituras de vida. Conhecimento, afeto e ação se entrelaçam criando-se um todo indizível e único, cada vez que o samba de lata se inicia ou se reinicia. Tudo isto consolidado pelo mistério que envolve cada construto social e histórico, em que as pessoas se sentem interligadas, comprometidas, a seguir o mesmo ritmo cadenciadamente negociado por todos que pisam o mesmo chão e respiram o mesmo passado, vivem o mesmo presente e juntos aspiram ao que se constrói de forma messiânica e promissora.

Por fim, este jogo simbólico é construído e partilhado por toda a comunidade, o que torna o exercício da arte que é o Samba de Lata algo comum, mas diferenciado, que se fertiliza e renasce a cada apresentação, sem jamais perder a sua identidade e o seu caráter inovador. Os gestos, as falas, os cantos, as melodias, são recriados a cada roda, como se fora a primeira e única vez. Sem dúvida alguma, cultura e história se sustentam todo o tempo, a partir da recriação da cultura através da força simbólica que explode a cada bater de palma e a cada pisada no chão.

O Samba de Lata é um sempre inédito fato cultural, que escapa em sua densidade aos olhos dos espectadores e reconstrói o mundo de seu povo, de forma intermitente, como se a cada vez, um novo parto parisse a vida que em paradoxo ali já se encontra, como se nunca houvera nascido. Magia da cultura, Magia da construção coletiva de um povo!

Paulo Machado: foi um reconhecido professor, político e cristão por vocação. Dedicou sua vida a procurar entender aplicar a justiça individual e social.