No compasso da fé, do mistério e do samba – o filho
Maisa Antunes
As saias rodadas no Samba de Lata parecem
comportar o peso e a leveza da vida e suas recriações. Dinha sai de uma
apresentação para acolher a notícia de que seu filho não estava bem. Aquele
telefonema trazia o cumprimento da profecia de um rezador. O jovem filho de
Dinha acabara de completar 21 anos de idade.
Entre a fé, o mistério e o samba, Dinha
fala do seu filho. Ele era surdo e mudo, isso ela só descobrira mais tarde, na
festa de aniversário do menino. O filho da Dinha nasceu de sete meses,
destinado a morrer com 21 anos de idade, tinha epilepsia. O rezador revela que
quando completasse 21 anos, o filho da Dinha não seria mais dela.
Dinha pariu Luiz Carlos, sozinha, na
estrada; a parteira chegou depois para cortar o cordão umbilical. Depois de um
desejo insatisfeito Dinha entristece-se, pressentindo que algo não estava bem.
Luiz Carlos foi vivendo e sobrevivendo com
as rezas do rezador e o gardenal do médico. Quando ele completou 20 anos, as
crises se intensificaram. Com 21 anos, tornaram-se mais frequentes. Dinha
sentia o peso de um calendário que andava para trás, menos um, menos um...
Com a idade 21 na cabeça e a esperança no
coração, Dinha lutou pela vida do filho, numa tentativa de fugir de um futuro
de ausências, e que hoje, com a chegada do futuro, o retrato, o cheiro das
roupas guardadas são a ponte para um passado de convivências, e motivo para
chamar por ele na hora da comida.
Dinha, em busca da convivência com Luiz
Carlos, parece cumprir uma profecia pesada, em que a leveza se faz na esperança
de conviver com a palavra filho e se fazer mãe do seu menino.
O destino de perder o filho, para esta
mulher, traça paisagens de sofrimento diante de situações das quais ela foi
escolhida para viver, mas ela, estranhamente, não perde a ternura, e se sente
aliviada pela prenda do destino.
A convivência cotidiana com a promessa de
perder o filho faz com que ela intensifique o amor e a alegria de compartilhar,
com ele, os dias que lhes restam de convivência.
Maisa Antunes: é professora e comunicadora de beleza. Como poucos ela tenta aprender enquanto ensina e, talvez, por isso mesmo, consiga transmitir, na fala e na escrita, sua vontade de ver, de entender e de ser.
O canto da lata
Ana Bittencourt
As batidas na lata, os vestidos rodando,
vozes cantando e os pés brincando no chão... É essa a imagem que me chega aos
olhos quando penso no Samba de Lata de Tijuaçu, uma manifestação
cultural que gira no corpo e na alma de um povo.
São mães, mulheres, meninas e avós: um
encontro de gerações que aprenderam a dançar ao ritmo da lata, que aprenderam a
sorrir no reflexo da lata, que aprenderam a preservar suas raízes nos contornos e no canto
da lata.
Ana Bittencourt: é professora e escritora. Entende a biologia como uma forma de filosofia. E se aproxima das reflexões sobre a morte para agarrar com mais convicção sua vontade de escrever e viver.
Fernando Coelho
Eu sou desta beirada de rio que voa para a infância. O meu coração carrega uma identidade sincopada ancestral, é a minha guia do meu santo perfeito, esculpido na beirada desta pátria que me adorna. Sou do Samba de Lata. Sou desta Bahia que rasga o mapa do meu destino e me coloca, de dentro das coisas serenadas, na estrada dos meus olhos sem paradeiro. O pé no chão batido, a poeira da alma que respira o horizonte, a saia rodada de cada mulher abanando o vento. É o meu Samba de Lata. É a cantiga que se esvai como o meu sangue que me fez e que volta para as minhas veias de amor. Eu sou do Samba de Lata. Sou a palavra de grão da terra. Sou da emoção da gota de suor que me alimenta. Sou a boca do sertão, seca de mim, repleta de cada um. Sou a batida, a incontida vertigem de mãos em palmas, de mãos crespas em asas ancestrais, em sinais dos tempos que são de hoje, com a saudade do nunca mais. Sou do Samba de Lata. Sou o coração de lata do samba que me dá pão, água e paixão. Sou a voz e a poesia do Samba de Lata. Entregue, meu corpo em desalinho no sofregar do gingado do sol, ensinado pelo bailado em verso e prosa, nos olhos e no corpo de gestos eternos. Sou do Samba de Lata. Sou.
Fernando Coelho: é jornalista e poeta e
tenta, em tudo que se reescreve, revelar, com sua vigorosa poesia, a realidade
individual do corpo e da alma humana.
O menino e o samba
Reginaldo Carvalho
Descobri
que era preto aos nove anos de idade. Escola Cazuza Torres, década de 1980.
Queria ser o Pedrinho, mas só podia ser o Saci. Eternos pulos de uma perna só
diante da diretora contagiada de coisa nenhuma e humana em suas lacunas.
Mudança de cenário e de tempo: Colégio Isabel de Queiroz, década de 1990. Meu
primeiro encontro com o Samba de Lata foi de fascínio e medo. O primeiro
estado: com os olhos fitos no palco via a história de um povo em música e dança
(beleza sem chapinhas e com o branco de Oxalá). O segundo estado: chacotas,
piadas e risadinhas tripudiavam sobre a dignidade daquele povo que resistiu em
sons e movimentos, pautando, na prática, a resistência preta no sertão antes
das reportagens, seminários, leis e teses que se construiriam como resultado do
orgulho/desejo dessa gente que dança.
Compreendi na carne o quanto os espetáculos
dizem de quem os faz e como sua recepção fala sobre quem os aprecia: amor,
ódio, fascínio, incômodo. A ambiência deu o tom da trajetória. Aprendi a ser o
que quis fora de Monteiro Lobato, ao mesmo tempo em que me perguntava por que a
marca de produtos alimentícios se chamava Dona Benta quando tia Anastácia era a
grande conhecedora dos mistérios da gastronomia brasileira.
Era tempo de meninices, mas eu insistia em
coisas outras e fora de rotina pueril. Por isso estava ali, diante do samba.
Somente duas décadas depois eu saberia que meu avô, Zé da Almerinda, havia sido
motorista da professora Isabel de Queiroz numa época de poucos professores e
carros na vila. O curioso: ela tinha a cor do samba. Parece não haver
coincidência. As histórias deste rincão, submersas nos escombros do tempo,
querem sair dos porões da oficialidade, não para ficar na sala, mas para ganhar
o mundo afora.
Quando portas e janelas forem abertas pelo
próprio sujeito com o empoderamento da ancestralidade – na sintonia do samba
com as batidas do coração – as interpretações da vida cultural não caberão em
quintais prisioneiros nem em semanas escolares de folclore. Entre os estados
sentidos o som do samba do agosto distante ecoou na pele preta noite adentro.
Eram irmãs.
Século XXI: o Samba de Lata virou Cult.
Homem feito, já morando na Roma Preta, fui ao Tijuaçu e vi que o Alto, era
deveras Bonito. É preciso sambar por lá
para entender por dentro e chegar ao coração da terra que poderá virar pista de
pouso, de gravatas e de tamancos. Os lagartos grandes darão lugar aos
gafanhotos gigantes, como minha bisa chamava os aviões na aurora do século XX.
Do outro lado do Atlântico, os amigos
europeus e africanos procuravam saber o que era ser preto nas bandas de cá e eu
começava falando do samba “domado” na Bossa Nova. Uma provocação. A conversa
bem que poderia ganhar mais fôlego num bate-papo visceral e amistoso entre Joel
Zito Araújo e Ali Kamel ao som de A Carne, na voz de Elza Soares. Daria samba?
Reginaldo Carvalho: é ator e professor. Como professor tenta interpretar a arte e como ator tenta interpretar o mundo que se movimenta de um lado a outro de sua consciência poética.
