Samba de Lata e quimera
Edmar Conceição
Era para ser um simples registro, algumas
impressões sobre uma cantiga de roda no vão de um vilarejo.
Confesso que, nas primeiras palmas e vozes,
meus olhos foram fisgados pelo encanto das belas sereias de sol, uma feitiçaria
de risos e passos, como se sambassem, delicadamente, no terreno da minha
infância e o ritmo de latas e cantorias pudesse levitar qualquer esperança.
Por mais que a aridez do dia fosse evidente
nas marcas das mãos e dos pés, era a cadência travessa do coração que embalava
cada giro de saia, cada brilho no olho, cada gargalhada que sonhava, cada soar
de lata que erguia poeira e fantasia.
Certa hora, recuei alguns metros, talvez na
ilusão de escrever algo com mais zelo e ternura. E foi neste momento, quando
percebi o horizonte se entregar a um crepúsculo que saltitava beleza, percebi
que, mesmo me distanciando, eu já estava dentro da roda e, até o breu dos meus
silêncios, cintilava quimeras.
Edmar Conceição: é cronista e dramaturgo e entre estas duas formas de interpretar o mundo ele tenta revelar a poesia e a beleza: nunca se rendendo a desilusão da realidade imposta pelo cotidiano.
Coração na lata
Iris Reis
Como
é bonito ver o movimento da dança misturado com as vozes,
as palmas e o ritmo das batidas na lata.
É batendo na lata que se faz o tempo e o
ritmo de um povo.
Os pés que dançam conhecem o chão.
O chão reconhece os pés e a alma de quem
dança.
A lata reconhece o coração do samba que
bate na lata.
Iris Reis: poeta e cantora, dedica sua vida
a compor e cantar a sua realidade interior. Acredita que a música pode revelar e
fortalecer a individualidade humana e artística. Cria para recriar-se e aceitar
melhor as realidades mal compostas.
Samba de latas
Waldísio Araújo
Ainda a madrugada lacrimeja orvalhos e já
de dentro dela Maria a buscar atalhos para catar água com as amigas, outras
tantas Marias do lugar.
Lata d'água na cabeça, lá tá Maria na
estrada, seguida de outras tantas negras Marias
vão-com-as-outras-até-o-fim-do-mundo-onde-haja-água.
Embaixo das latas secas, negras cabeças
equilibram juntas o céu azul de um anil transbordante. E o céu gira, rodando no
chão as sombras das latas, que um mundo suportam. E embaixo a terra gira e no
meio a mente gira e no alto a pomba gira, tudo rodopia em busca de vida de paz
e de água.
Uma moça magra e alta baixa a lata e de
olhos fechados tamborila -- taratá taratatá -- assustando as amigas, que
temem o céu desabar: se o vazio dessas latas se derrama pelo mundo, nem mesmo
Deus tal desastre poderá reparar!
Todas falam, todas gritam, todas se
realinham entre os trópicos, os umbuzeiros e a linha do Equador, a dançar.
E lá se vão, inaugurando outra estrada, um
novo rio a vadear. Taratá taratatá. E a moça, cega, tateia, taratatatatateia
num louco samba a criar. E as outras se vão girando, rodando, em cada passo
voltando, reaprendendo a dançar.
E porque céu e terra e coisas não querem,
não sabem nem podem cantar:
taratatá taratatá
taratatá taratatá
taratatá taratatá...
Samba de Lata: auto estima e auto defesa
Antônio Britto
O Samba de Lata tem origem. Foi fecundado
sob o empuxo de supetões nas largadas de portos de além-mar. Continuou
gestando-se, inopinadamente, ao furor do banzo nos porões negreiros da infame
travessia. Mas para ver o nascimento do seu canto e ritmo, conteve nas
entranhas do escravo indefeso a matriz de sua etnia, até enfim aquilombolar-se
em seu lócus final.
O canto do refúgio deu no Lagarto. E o
artifício da batida deu na lata. Acústica e percussão. Vozes, preces, odes
poéticas... E zinco tinindo no ermo da mata. Reverências e incensos à flora
desconhecida e orações afro-culturais à fauna hostil.
Qualquer que fosse o destino dos cativos,
em perversa diáspora, nada deles se poderia esperar que não a ênfase nos
valores de sua gênese continental, raízes e procedência histórica. Daí sua
devoção pelo que evocam os sons vindos do samba e da lata. Para a sociedade não
negra, uma divertida manifestação cultural. Para os afrodescendentes, uma
litania de íntima fé, capaz de suprimir saudades remotas indefinidas e de
aliviar lamentos que não se desabafam.
O corpo físico chegado ao Lagarto, desde
Mariinha, abriu em sua psique o sentimento de incompletude de sua própria
identidade. Um corte dos laços que o liga a valorosa ancestralidade. Redução
que angustia e maltrata a membros da etnia da ‘mãe África’, cientificamente
pioneira da terráquea humanidade.
O infausto fenômeno da escravidão está
ainda muito recente para que “quilombos contemporâneos” tal Tijuaçu superem
desde já esse pranto. Consequentemente, o tempo de muitas gerações há de ser
demandado para que essas comunidades possam atingir e experimentar a plenitude
do verdadeiro conceito de alegria.
Daí a responsabilidade que pesa sobre o
todo social, de antecipar o momento em que o valor da diversidade universal
seja reconhecido como bem fundamental, seja no campo da etnia ou nos demais
sobre os quais se abatem ridículos e inomináveis preconceitos. Seguramente,
esse momento não se dará no âmbito de sistemas econômicos que endeusam “o homem
lobo do homem’, ciclo em que o capitalismo cumpre ainda a etapa final da
pré-História da humanidade.
Enquanto isso, o Samba de Lata de Tijuaçu
mantém sua alma antropológica. Ascende em astúcias artísticas camaleônicas, em
códigos linguísticos só decifráveis pela placenta que o trouxe ao Lagarto.
Fazenda donde ainda ecoam cantos de tatus, jacarés e formigueiros. Ora em
versos, ora em dança e sempre em melodia.
Seus percussores não descrevem, basta-lhes
abstrair sobre a nova terra e, sem premeditar, perpetraram a criação. Claro que
desconheciam os cantos gregorianos, consagrados na monocórdia da voz. Séculos
depois os crioulos do Lagarto criaram seu contochão, ainda mais consagrado, em
vozes multicórdicas, plurais.
Portando a mesma e única lata, simples como
a do século 19, Dinha, Ilka e companhia, hoje, batem e cantam numa ciranda a
rodar. Rodando cultivam enredos rumo à equidade e emancipação. Sonho de uma
negritude que rejeita sinfonias inacabadas, à constante lembrança de que a fuga
não terminou. À necessária intuição de erguer um orgulho protagonista, fadado a
tão cedo não morrer, cintilante no coral de cânticos do Samba de Lata de
Tijuaçu.
Antônio Britto: foi um jornalista e
socialista por vocação e convicção. Até sua morte acreditou que poderia
transformar o mundo de tal forma que se parecesse com seus sonhos de
fraternidade coletiva.
