Postagens

Imagem
O Samba de Lata é uma manifestação orgânica que através dos corpos e da luz percorre, de ponta a ponta, a aldeia de Tijuaçu; onde ser negro é ser também um movimento em direção ao passado, tão presente, na pele de cada um. Em Tijuaçu não se é negro por uma falsa identificação ideológica: e sim por uma sensação instintiva do espírito de cada indivíduo que renasce e vive ali.  O Samba de Lata, a Raça expressa nas batidas na lata, nasceu através da busca pela água que, ao mesmo tempo, libertava e ainda liberta um povo: da sede da boca e das tantas necessidades da alma.   Marcos Cesário TIJUAÇU - BAHIA - BRASIL   
Imagem
Samba de Lata e quimera Edmar Conceição Era para ser um simples registro, algumas impressões sobre uma cantiga de roda no vão de um vilarejo. Confesso que, nas primeiras palmas e vozes, meus olhos foram fisgados pelo encanto das belas sereias de sol, uma feitiçaria de risos e passos, como se sambassem, delicadamente, no terreno da minha infância e o ritmo de latas e cantorias pudesse levitar qualquer esperança. Por mais que a aridez do dia fosse evidente nas marcas das mãos e dos pés, era a cadência travessa do coração que embalava cada giro de saia, cada brilho no olho, cada gargalhada que sonhava, cada soar de lata que erguia poeira e fantasia. Certa hora, recuei alguns metros, talvez na ilusão de escrever algo com mais zelo e ternura. E foi neste momento, quando percebi o horizonte se entregar a um crepúsculo que saltitava beleza, percebi que, mesmo me distanciando, eu já estava dentro da roda e, até o breu dos meus silêncios, cintilava quimeras. Edmar Conceição: é cronist...
Imagem
No compasso da fé, do mistério e do samba – o filho Maisa Antunes As saias rodadas no Samba de Lata parecem comportar o peso e a leveza da vida e suas recriações. Dinha sai de uma apresentação para acolher a notícia de que seu filho não estava bem. Aquele telefonema trazia o cumprimento da profecia de um rezador. O jovem filho de Dinha acabara de completar 21 anos de idade. Entre a fé, o mistério e o samba, Dinha fala do seu filho. Ele era surdo e mudo, isso ela só descobrira mais tarde, na festa de aniversário do menino. O filho da Dinha nasceu de sete meses, destinado a morrer com 21 anos de idade, tinha epilepsia. O rezador revela que quando completasse 21 anos, o filho da Dinha não seria mais dela. Dinha pariu Luiz Carlos, sozinha, na estrada; a parteira chegou depois para cortar o cordão umbilical. Depois de um desejo insatisfeito Dinha entristece-se, pressentindo que algo não estava bem. Luiz Carlos foi vivendo e sobrevivendo com as rezas do rezador e o gardenal do médi...
Imagem
A força da nação Emiliana Carvalho Uma nação. Assim o povo da comunidade remanescente quilombola de Tijuaçu identifica, hoje, a terra onde vive. Nascidos não propriamente dali, daquele chão cravado em meio ao semiárido baiano, no interior brasileiro, mas dos ventres de três escravas que fugiram dos martírios de uma senzala soteropolitana e que buscaram liberdade em terras ainda mais distantes que a sua África, os homens e mulheres de Tijuaçu construíram “uma pátria”. Esta pátria, de raízes antigas, guarda em sua história dores, privações e preconceitos, mas guarda também exemplos de luta. Os membros da nação Tijuaçu trabalharam, dançaram e cantaram para sobreviver, fazendo disto um ato de liberdade e resistência, fazendo nascer uma das manifestações culturais mais significativas da Bahia: o Samba de Lata. Mulheres e homens dançavam e cantavam o que os seus espíritos pediam. Criavam versos simples que falavam com sentimento de sua terra e de tudo que ela abarcava. Enfrentando a dificuld...